sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Capítulo de educação sentimental

o  moleque era um capeta.
puxava o rabo aos gatos
quando não lhes chamuscava
os focinhos achatados.
aos cães atiçava a ira dos caninos
no prazer de ver o brilho
faiscante das babas ao chão.
atazanava, aturdia, aprontava.
a vizinhança recolhia as crias
quando a brisa delatava
o cheiro acre do menino.

o pai se fizera de conta
e no primeiro trem se foi.
a mãe não jogara a toalha
(ainda), mas o dedo
da derrota iminente
lhe apertava os ombros
ao chegar do trabalho.

só a vó enfrentava a fera.
entuchava-lhe o de comer
em combate, menos acirrado
que o de tomar banho.
a escola se rendera e nem
os muros o continham.
mas a vó foi persistente;
educava por valentia.
o ouvido septuagenário
enrugou-se de impropérios.
a cada risco ruía
o seio enfermo da família.

quando ela morreu,
ele não mais menino,
o olhar aquilatado
de percalços apoderou-se
da alça áurea do caixão.
ele afrouxou o aperto
do vazio e se lançou
à frente, com o silêncio
conclamando os mortos
para a reverência.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Renuncio a ser imortal


“O destino de um sábio é acabar estátua tarde ou cedo.”
(Raul Pompéia)

"...não se pode ficar preso a uma ideia do século 19"
(Letícia Bandeira de Mello)

Agora só escrevo pelo gosto
de engolir as horas que me restam.
Não penso em nada além.
Escrevo para o hic et nunc,
que agora, sendo mortal,
posso me permitir ser esnobe.
A imortalidade é burra.
Sei agora que Anchieta
estava certo
em escrever na areia.
O mar, levando o verso,
o fazia épico
por banhá-lo
no oceano de Camões,
e até, com sorte,
no mar de Homero.
Mas não quero ser imortal.
Com meus filhos criados,
passo a escrever
na areia da praia
a versalhada úmida.
Que ao menos
deleite um caiçara,
se ainda existirem,
e os corruptos,
que nunca se extinguem.
Acho que não farão
cócegas às moças, que essas,
só me farão cócegas
à memória displicente.
Um verso e uma água de coco
talvez não sejam mais
ao que o poeta caibam.
Talvez com os nacos
da aposentadoria
eu venha a ser padeiro
e escreva meus versos
em papel de pão, inspirado
no aroma das fornadas
e movido pelo estalo
crocante das cascas.
O verso lido ao pão francês,
se não impõe respeito,
ao menos se confunde
ao gosto da manteiga.
E mesmo que o destino
seja o lixo fedorento,
resta ao verso o sonho
de virar ciclo.
Mas ao desejo
de ser imortal
eu renuncio.
Não vale a pena.
Ser lembrado,
talvez um dia,
em boca alheia,
ou num canto de bibliografia
acadêmica, a mim não presta.
A memória afunda no Letes
e o papel o vento leva.
O virtual é o Universo,
bilhões de anos
de um brilho a outro.
O imortal vive na pedra.
Se a mim a negam,
porque não é do século,
será que o nome apagarão
de minha lápide?
E o que farão
com o busto de Minerva?

sábado, 9 de julho de 2011

De um anúncio de bodas

era difícil a pergunta

anos depois de ter

o coração incensado

no teu sorriso de nuvem

e agora revê-lo alvo

como outrora aberto

a minhas mãos inda

incompletas do gesto

de moldá-los, era como

solfejar a melodia

soterrada pelas noites

ruidosas de memórias

no início do espetáculo.



mas tão pungido foi o azul

dos teus olhos nos meus

dedos trêmulos que o sangue

ardeu-me a mente entulhada

de desejos e o teu calor

de voz gravado em meu leito

de verdades centelhou em meu

rosto cativo ao teu intento.



só que não era o nosso tempo

o mesmo nos relógios, e os teus segundos

de partilha escorreram sob a chuva

rara do céu marchetado de julho.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Para uma nova história da filosofia


O Estagirita, busto romano, séc. I d.C.

 
Mas Lutero o chamou

de sicofanta, de bode fedido,

enquanto os aristotélicos

diziam o que ele havia dito

à revelia das evidências;

e se há por certo que o pai Tomás

se indispusera com os sábios árabes

menos pelas ideias que pelos votos,

ninguém pode, afinal, compará-lo ao bode,

pois não há códice que o assemelhe

aos beiços cavernudos de Sócrates.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ocorrência

se sabe que havia

oito tiros nas costas

e o corpo no mato

jogado pelos capangas

após a discussão

sobre quem errara

quando o vigia do banco

sacou o 38

e expirou ali

junto à porta de vidro

não sem antes

desferir três tiros

e um deles na coxa

do que estava

junto ao caixa,

o motorista,

que estacionara

frente à agência

o Santana roubado

azul metálico,

rodas de liga leve

e os bancos altos

que a loirinha

a chamada

de gostosa

ingenuamente

cobiçara

quando os quatro

cruzavam

a Nove de Julho

paquerando

as encorpadas

após repassado

o plano do assalto

na loja de tintas

ainda aberta

àquela hora

apesar de viva alma

entrar no intuito

de embelezar a vida

entre quatro paredes

enquanto se cheirava

cocaína no banheiro

dos fundos e sorria-se

da vida nem assim

tão franca

mente

diluída nem também

trágica, mas da pequena

Carolina, quatro anos,

que, dizia-se,

o humor da mãe,

o que era o mote

dos sorrisos estampados

quando as armas

se fechavam

após serem revisadas.

Partidas

você partiu assim

após o réveillon

sem muita explicação;

um “ah!” ou “você sabe”,

“eu é que tenho problema”

e fôrmas desse tipo!

não desdenhou

porque não queria

e se eximiu de dizer

que tinha coisa melhor



mas tinha o script

e abriu-me o sexo

de samaritana

quiçá o receio de dizer

que tinha coisa melhor

espécie de taxa

de encerramento



e aí tudo bem

“fico sem dever nada

para ninguém”

um tchau e um beijo

e aquele travo

na garganta

quando te vejo



por este fio

que não desata

ainda te amo

ou marca o corpo

a posse árdua

do passado?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ao ler a página de rosto

Após lido, o livro

é lançado no lixo.

“Zumbirão as moscas!”. Mas

lembra que estavam mortas.

Rememora os versos. Há vezes

que soam leves, e outras

como hipopótamos – embora

o símile não venha dele

se arca ao peso do fruto

podre. Ainda assim

se volta ao vate e vê

o verso à flor do Verbo,

o pensamento a soar

à oitava do canto,

a voz do vernáculo

a entoar as ideias,

a vera amplitude

encarnada no arranjo

das letras. Retoma

o poema. Desfolha-o

na mesa, manchado

de manteiga. Ao lê-lo,

reúne os elos esparsos

na mente, como o vento

recolhe as folhas no desejo

de as vestir em árvores.

Tão logo cessa

o alestamento

as folhas caem

sem par. Assim revolto

ao rosto o sentido

lhe vem de encontro.

“Que praz ao poeta?”

É hora do almoço.

À mesa o poema

retarda o feijão.

“Que dom doar ao planeta?

O esforço é vão. As letras,

se muito, riscarão no ar

seus ciclos como cometas

na página infinita.

Que olhar as lerá, se definha

nossa hermenêutica

de estrelas?”. Ronca-lhe

no ventre o vácuo.

À vista tenra

destina os poemas

ao saco de recicláveis.

“Se pede atitude!

Implora o planeta”.

domingo, 22 de maio de 2011

Endereço

não chove há dias sobre as flores

abertas ao sol, quietas da indiferença

áspera dos mapas, da manhã

maquiada de estrelas enrubescidas

no afago da aurora. A cinza

dos parapeitos cobre as mãos

enlutadas sob o olhar tensionado

de distâncias que retalham a cidade.

é justo o silêncio entre os ruídos.

é justo o vácuo encaixado ao peito.

justa a luz trincada da memória

que entra a rua quieta do teu pouso

como a tinta que descama da parede

e sobre o chão raspado, qual flor se abre,

como um dia ali abriu-me o teu recato.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Questão de verossimilhança

pensei escrever no poema

Vila Madalena

como se marca no mapa

a referência



lembrar que um dia nos braços

tive Helena

não na lonjura de Osasco

nem Moema



mas logo pensei que alguém

de Alfenas

pudesse ver no confesso

um problema



como se vindo a São Paulo

pela Ayrton Senna

achasse a cidade uma cópia

de Atenas.

domingo, 24 de abril de 2011

Leônidas

porque o pé abriu-se para as nuvens

como se fosse um pássaro saciado de terra

e do fruto partido ao chão tivesse lavrado

sua semente de voo flamejante

rumo ao azul sem linhas, ao campo

sem rastro, como o fio de uma espada

partindo o céu ao meio sem sangrá-lo

com a estreita lei da gravidade.