o moleque era um capeta.
puxava o rabo aos gatos
quando não lhes chamuscava
os focinhos achatados.
aos cães atiçava a ira dos caninos
no prazer de ver o brilho
faiscante das babas ao chão.
atazanava, aturdia, aprontava.
a vizinhança recolhia as crias
quando a brisa delatava
o cheiro acre do menino.
o pai se fizera de conta
e no primeiro trem se foi.
a mãe não jogara a toalha
(ainda), mas o dedo
da derrota iminente
lhe apertava os ombros
ao chegar do trabalho.
só a vó enfrentava a fera.
entuchava-lhe o de comer
em combate, menos acirrado
que o de tomar banho.
a escola se rendera e nem
os muros o continham.
mas a vó foi persistente;
educava por valentia.
o ouvido septuagenário
enrugou-se de impropérios.
a cada risco ruía
o seio enfermo da família.
quando ela morreu,
ele não mais menino,
o olhar aquilatado
de percalços apoderou-se
da alça áurea do caixão.
ele afrouxou o aperto
do vazio e se lançou
à frente, com o silêncio
conclamando os mortos
para a reverência.
