domingo, 7 de janeiro de 2018

Retrato

O pai está com o filho e os dois encaram a câmera. Em toda a vida, é a única fotografia que os une, só os dois no mesmo enquadramento. De fato, o filho não lembra de outra tão nítida, ou que estejam apenas ele e o pai, ou que a foto tenha sido tirada exclusivamente para mostrar os dois, pai e filho posando para quem os fotografa. Lapso de memória do filho, pois há outra, só com os dois, não tão bela como esta, nem tão natural, pai e filho sentados, o filho no braço do sofá, o corpo inclinado para o pai, que larga um sorriso discreto. Mas aquela é acidental, roubada numa distração dos dois, como um flagrante. Esta não, esta foi pedida, pensada para o momento e para a luz que há. Faz calor, dentro e fora da imagem, no interno e externo da cena, no interior e exterior do narrado. O sol é forte, o verão é típico. Os dois sorriem como costumam, sem mostrar os dentes, acham a arcada menor do que a boca, como se ali flutuassem, é estranho, embora haja beleza, e antes foram sempre assim, de sorriso curto, mais satisfação que alegria, não menos feliz que esta, não menos segura que aquela. De fato, vão entre o sério e o jocoso e o riso é só um rascunho do que sentem, esboço concebido em pudor, que os dois sempre acharam que sentimento dá-se aos poucos, em silêncio, talvez os olhos nos digam mais do que diz a boca, que é próprio dos olhos serem mais eloquentes, e era próprio dos dois usarem pouco a fala. Os dois usam óculos, do pai bem colado ao rosto, cobrindo a sobrancelha, o aro grosso e marrom, os olhos bem enquadrados, centrais, já um pouco caídos nos cantos, pela idade certamente, que melancólicos nunca foram, o pai não era do tipo, as pálpebras um pouco baixas, a claridade é forte e a luz vem da esquerda da foto, justo onde está o pai, mas seu olhar é afetuoso, e brilha. O filho usa os óculos sobre o dorso do nariz, tangenciando as linhas superiores do olho e do aro, que é preto e fino, de metal, mais leve que o do pai, que os olhos são também menores, mais amendoados, embora estejam quase inteiros na sombra e se abram mais que a boca, são fixos e incisivos ao fotógrafo, mas ainda assim são convidativos e estimulantes. E brilham. Há mais que se possa dizer da foto, o pai está em pé, o filho, que é mais alto, apoiado em um banco, sua mão direita ao ombro do pai, que está mais firmado ao chão, as mãos cruzadas sobre a barriga saliente, que em outros tempos já fora até mais destacada, enquanto o filho tem mais ângulos, o corpo mais torcido, outra geometria, um pé solto no espaço, o outro pela metade encostando ao chão, apenas dando equilíbrio. A postura do pai é rija, a do filho fluida, mas ambos estão leves, como se pairassem no quadro, como se a pose os elevasse acima, uma vez que os olhos de quem vê a foto, inutilmente resistem a não se elevarem, a não fitarem o rosto dos dois. Ao ver a foto, o filho se sente fotogênico enfim, o que sempre invejara nos retratos do pai, que nunca fora modelo, artista de televisão, nunca posara para propagandas de canetas, mas sempre ficava bem nas fotos, talvez o enquadramento, a proporção das linhas, a naturalidade diante da câmera, o filho nunca soube explicar direito, mas admirava os retratos do pai, enquanto os dele eram raros e arredios, fugia das solenidades de fotos, dos momentos íntimos da família, ou quando era fisgado se enfiava entre os maiores, escondia-se e só parte da cabeça, ou do corpo, nos podia comprovar que ele estava na foto, a mãe teve dificuldades de encontrar-me alguma, três de quando era criança, nenhuma da adolescência, exceto as de rosto que iam para documentos, todas amareladas, para as quais o filho sempre tinha uma ironia, o mau gosto nas roupas, o ridículo das poses, o cabelo desgrenhado, a magreza indisfarçável, a mãe retrucava que as roupas eram do tempo, as poses eram dele, que não queria tirar a foto, o cabelo sempre fora rebelde e a magreza a mãe tentara de tudo, até vermicida lhe enfiara na boca, mas ela gostava dele assim mesmo, que as mães não se importam com a feiura dos filhos, são seus filhos e basta, mesmo que as fotos não tenham graça, mesmo que pareçam ridículas com o tempo. Mas dessa foto com o pai ele gostou, está bem nela, quase tão bem como está o pai, embora o pai ainda se recuperasse e carregasse um leve abatimento, que a magreza incomum denunciava, mas a diferença entre os dois nem é relevante, nem há qualidades que eu queira destacar nesse momento, a foto é boa, colorida e luminosa, e todo o espaço preenchido de silêncio é eloquente. Pai e filho olham além da cena, além do que os captura, a fotografia tem essa absurda qualidade. Naquele dia falaram pouco entre eles, embora a conversa tivesse sido disposta à mesa como iguarias. Pouco também se falaram antes do dia da foto, que o filho telefonava pouco. Pouco se falaram nos dias depois da foto, que os hábitos de ambos não mudaram muito. Algo na imagem, atrás das cores, na geometria das poses, na assertiva dos olhos, nos comunica. Talvez as palavras estejam em negativo, talvez precisem de filtros, talvez o fotógrafo se obrigue a nos explicar sua arte, talvez o que pouco dizem pai e filho precise ser visto nos pontos de luz e de sombra.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

5h30


Acordei-te pelo lado esquerdo da cama
Onde preferes porque sabes da dor
Em meu ombro direito. Levantaste
De lado como o recomendado
E caminhaste ao banho morno
Que lhe havia preparado às 5h20
Como é nas manhãs de agosto.
Separei tua roupa na cama inda
Recendente do cheiro com que sonhas
Tremendo às madrugadas frias
E esperei-te para vestir-te
Enquanto vistoriava teu cheiro novo
Da manhã e apanhava-te os cabelos
Com as mãos quentes para penteá-los
Por onze minutos ou 57 escovadas
De cima a baixo até as pontas
Esmiuçadas em meus dedos.
Às 5h45 sentaste para o pão
Aquecido com manteiga e o teu
Primeiro beijo deu-me ao gosto de café.
“Será maior o meu amor no dia 5”,
Anoto às 6h25, quando o carro
Vira a esquina e eu retiro com o braço
O orvalho da mureta onde retomo
As tarefas separadas para o dia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ode ao Estado



porque o Estado é uma loura de seios fartos
bafejada por senadores e deputados
que se comunicam por suas babas e arquejos
publicando as indecências nos Diários
Oficiais da orgia democrática e que obesos
sodomizam o Erário e em grande felação
pública e televisionada, enganchados
à tribuna, onde gemem suas taras reprimidas
nas cadeiras do plenário no instante que onanizam
os seus lúbricos discursos ao órgão do presidente.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O leitor do poema

Almada Negreiros

olha nesta imagem do poema
o teu olhar que lê o verso
onde entendes tua vida dita
assim em sons e reverberações.
vê o teu espanto que é achar
que eu possa de algum modo
conhecer os meandros da tua alma
escura sem nunca ter-te visto.
pensa então na impossibilidade
que é haver no mundo alguém
que reconheça a tua muda dor
sob os lençóis gelados do teu sono.
se a tudo entendes como enigma
e o estupor que tens levanta
as pálpebras do teu espírito hibernal
é que o poema diz o que a língua
que habituas o teu ser febril te calas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janela



a vizinha puxa a meia
à altura da virilha
e ajeita a calcinha na fenda

o vizinho lança sua vara de pesca

ela alça os braços, espia as axilas
e sacode os seios

o vizinho gira o molinete

ela sai da cozinha à sala
e do corredor vai ao quarto

o vizinho examina o anzol

a vizinha se espreguiça,
coloca-se em decúbito
e cerra os olhos
acho que sorrindo

o vizinho não fisga nada
que o dia não era para peixe.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Divagação sobre o espaço

quando o amor se foi
ele ficou sem saber
bem o que fazer
saía de casa sem rumo
andava à toa
entrava em qualquer lugar
e saía sem pedir nada
pensava nela o tempo todo
e até chorou no ônibus
(uma vez e pouco,
que os outros olhavam
com pena, mas sem acudir
nem perguntar)

o dia todo era uma dor
uma vontade de ligar
de bater na casa dela
dizer uma frase forte
e ela toda se entregar

e aí era a imaginação de pernas

mas pensava no ridículo
na cara de cu que ela faria
e se tivesse um outro cara
pelamor! eu não preciso,
e andava na cidade
vendo a hora mais tardia
de voltar para casa

e voltava e o outro dia
era quase a mesma coisa
a dor não saía e o pensamento
teimava em repetir
em qualquer esquina
o sorriso da cara dela
que era belo, admitia

não sabe de onde, um dia,
lhe veio que o cheiro dela
não lhe era apetecível
que dizia suas ideias
muito antes repetidas
invertidas, maquiadas
não frequente sem sentido
e mais isso, mais aquilo
e tudo se amontoando
no encadeamento dos dias

pensou, deve ser o amor
dando o adeus definitivo,
sem dor ou mágoa
até um pouco ferino
e eficaz na injustiça
limpando qualquer migalha
deixando o espaço vazio

o que ele não entende
e contraria a lei da Física
como pode um lugar que é vago
não deixar que um outro corpo
se acomode, ocupe, invada,
como é que pode o vácuo
se apossar assim do espaço
como latifundiário

improdutivo, mas proprietário?

sábado, 29 de agosto de 2015

Pensado como soneto


eu lhe tinha feito muitos poemas
do tipo “teus olhos...” ou “os lábios...”
posto “cerejas” e “centelhas”, e não “procelas”
enquanto à janela se orgulhava

de si talvez, da beleza oferecida em versos,
que embora fracos, de andamento trôpego,
ainda assim tinham um quê de sincero,
que não garante a poesia mas rendiam beijos.

no dia em que (nada a ver com os poemas)
resolveu mudar de arte, e o amor que eu sentia
(gostara de amar) forçava os muros do peito,
lhe fiz o derradeiro poema, sentido, pungente

(só de lembrar-lhe como dançava na tumba
me enche os dedos de orgulho) para o momento:
ela pediu-me o papel, mas rasguei-o.

a merda é que agora não lembro
as palavras que usei. Queria mostrar a vocês


o poeta que fui. Como era, o começo, mesmo?

Sorôco

Sorôco, sua mãe, sua filha
me levou de novo às lágrimas.
Nem completa quatro páginas
a edição que tenho em casa.
E os coitados dos alunos
- os que não tinham dormido -
me olharam consternados
de meus súbitos soluços
e disseram: "Olhem só!
O Sidnei está chorando!"
Como se a lida maluquice
no professor fosse entrando.

Mas não me sai da cabeça
que o dia em que ler o conto
sem marejar um olho
saio da escola cantando.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A musa partida


Afoguei o verso à boca.
Ela me encarava à toa.
Não direi! Não farei isso!
Um poema é um desperdício.

Ela esperou. Não disse nada.
Só me olhava sua risada.
Eu tremia com minha língua.
Não é hora de poesia!

Mas então, não aguentei
e em dez versos eu rimei
os seus olhos, seus cabelos
e outros clichês de permeio,

o sexo e etcetera,
tudo que ali já era,
para enfim no arremate
mandá-la aquilo que a parte

e destilar toda minha ira,
só que o ritmo desandaria
e ainda que o verso minta

não se pode perder a poesia.

domingo, 5 de abril de 2015

Hermenêutica de J.



Como uma capa de folhas
Verde em seu brotejar
De tenra simplicidade
Que a mão de leitor
Surpreso explora
Como um veludo
E abre o in folio
Lento, com olhos
De quem não quer
Espantar pássaros,
E traga o frescor da página
Como quem colhe frutos
E abre o livro
Como a acariciar a relva
Que estala à tarde
E as letras, sonoras,
Sussurram úmidas
Como a brisa
Que curva o verão
Assim teu corpo abriu-se
A minha compreensão
E os meus dedos, ledos,
Lendo as linhas, pousando
Ao final das frases
O seu espanto
As flores me embaralhando
O pensamento
O respirar entre os capítulos
Apaixonando-me do livro
Que agora não quero lê-lo
Chegar ao fim e deixá-lo
Na prateleira
Então
O tenho aberto
Na escrivaninha
E todo dia volto

Ao frontispício.