segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Para o dia em que sorrimos juntos

(de Propércio)

Passe o dia sem nuvens, sopre o vento,
e as ondas descansem na praia.
Que a luz do dia não mostre a dor.
E tu, amada minha, gerada em auspício leito,
dedica ao deus o que lhe é justo.
Com água fresca espanta o sono
e prende ao alto a luzente madeixa,
o vestido põe - o que a meus olhos
primeiro encantou -, a fronte enfeita
de coloridas flores, e roga
que a beleza que te cobre
reluza perene ante meus olhos.
E quando o incenso florir o ar
e a casa toda reluzir na chama,
ponhamos a mesa, e que entre as taças
escorra a noite e olor de açafrão
perfume nossas faces cálidas. Que a flauta
soe débil, chamando à dança,
e tuas palavras se libertem de pudor.
O doce convite espante o sono ingrato
e a rua ressoe clara ao nosso rumor.
Que o destino lance os dados e nos diga
a quem flechou demais o menino alado.
Por fim, alta noite, pós tantas taças,
Vênus convidará aos sacros ritos
e em nosso leito celebraremos
assim selando o teu natalício.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sinal dos tempos

(de Marcial)

Sem pudor, cagas, em vaso de ouro.
E vinho, bebes, em vidro: a merda te é mais cara.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tuas mãos abertas

(de Sinisgalli)

tuas mãos abertas me amanhecem
e a alvorada te induz a levantar-te
como uma vela fresca sobre meu corpo.
o sangue é feliz e me corre
a brisa, me cresce a manhã sobre o mar.
ao despertar as vozes da regata
desabam de extrema aventura.
a água é prado sob os pés.
florida, a luz de tuas mãos
é fria como as unhas.

(o sol te abre a mão soberba
e o tédio do dia
retém o calor da carne)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ledo engodo


“...é la Morte, infante.”
(de Pascoli)
“...tendo imitado na voz as esposas dos chefes argivos.”
(Odisséia, IV)

porque ouviu a voz
de sua amada distante

lançou-se
na espessa onda dos mares,
sombra dos montes

(não tinha a glória loquaz no coração,
mas a casa e o horto de altas árvores,
o vinhedo ensolarado e sua mulher)

chamou-lhe o abismo luminoso
e a boca, inteira, abriu
sem que punho forte o calasse

no fundo do ouvido apenas
sibilou, rajada marinha:

Querido! Querido!

Rua do Lago

(de Sinisgalli)

Bateu-te o coração mais forte
que as botas de jovens soldados.
Chegou-te o ruído no cheiro
dos cabelos, os belos dias
ao giro dourado do lago.
Empalidecem na neblina
a estrada da vila, as letras
bárbaras das placas, os campos
atrás dos chalés.
Recorda-os de um tempo gasto
e de uma nuvem de névoa
emerge a figura terna
aquela doce batida no peito
e a sombra quente no rosto.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Convite

(de Safo)

Capitula, Kátia, o terno Sid. Que tom tereis?
Batei tenaz ao peito, querida, e apartai as vestes.

No Shopping







(de Afonso, de Castela)




noutro dia
ela veio
falar comigo

foi tanta
a fala
que fazia

que perdi
o que dizia.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O poeta se antena ao Mundo e o Mundo se antena à raça

Navego nas ondas do progresso.
Tudo é ordem. Tudo é sucesso.
A tarja branca no meu pulso
é um abscesso.

Desço de meu navio cansado e regresso.
Nado como quem bóia n’O Processo.
Pareço bosta ao mar, pareço tudo
que despeço.

À praia sob a sombra descanso e me refresco.
Meu paladar tem sal. Ao Oceano cesso
de querer seu fundo. Aportei-me ao Mundo
e água fresca eu peço.

Adão

Sigo leve sem costela
e ela me mede. Aninho
meu coração nas trevas
porque me é descrédito.

Eva o suplica. De pernas firmes,
gigantescas rochas, concedo-o.
Ela o tritura entre os dedos,
seus olhos queimam-no
e ao devorá-lo arrota.

Sorrio porque a já sabia porca.

Obituário

no dedo o lápis
por um lapso
quebrou-se.

quedou-se morto
o rapsodo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Acusa recebimento

Ela manda felicitações
para o meu casamento.
Escreve segura - Felicidades!-
como quem faz requerimentos.

Embora arrisque no post-scriptum
um contido grito de maledetto.

Aurora

Era o desejo. A claridade ruiva e vazia do seu calor me inflamava os dedos. Mal suportava. Inutilmente submisso, agitando as folhas do meu desalento na rua deserta, meus pés morenos seguiam as faíscas da mulher em nuvens. O amor conjugal deitado no Grajaú açoitava a minha culpa encarnada. Era menos que um cão chutado na rua: eu era a fatalidade. Meu trotar desprevenido, meus gemidos pasmados, tudo, naquele instante, estacou. Vibrava o espanto. Fremia, fascinada, a ante-sala de meu outro ser. Seus cantos eriçavam-me os pelos. Tornaram-me o gesto desafinado, surdo da impossibilidade de aventurar-me nos esgotos secos. O passo rendido ao cenho profundo da gravidade. Os olhos caídos na aprisionada natureza. Um sonâmbulo que ante a aurora encontra a mudez.