quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O amante resignado

(de um tema de Lucrécio, livro IV)



mesmo sabendo que minha mão errante

não seguirá teu rastro noite adentro,

que o sumo roubado à tua boca arfante

evolará em círculos no vento frio,

que o cheiro agudo da tua pele ardente

se extinguirá na cama ao fim da tarde,

que a marca no teu seio feita a ferro e dente

se cobrirá de pó na noite extrema,

que nada do teu corpo se fundirá ao meu

depois que as bocas, mudas, se apartarem;



ainda que em vão a mente

recomponha o teu olhar em germe

e o teu sorriso desvaneça aos poucos

entre nuvens no horizonte cinza;



ainda assim a luz que nossa chama alçou

me ilumina as ruas, que posso, agora,

me embrenhar nos becos, aventurar-me

nos labirintos por que tua voz roçou.

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