(de um tema de Lucrécio, livro IV)
mesmo sabendo que minha mão errante
não seguirá teu rastro noite adentro,
que o sumo roubado à tua boca arfante
evolará em círculos no vento frio,
que o cheiro agudo da tua pele ardente
se extinguirá na cama ao fim da tarde,
que a marca no teu seio feita a ferro e dente
se cobrirá de pó na noite extrema,
que nada do teu corpo se fundirá ao meu
depois que as bocas, mudas, se apartarem;
ainda que em vão a mente
recomponha o teu olhar em germe
e o teu sorriso desvaneça aos poucos
entre nuvens no horizonte cinza;
ainda assim a luz que nossa chama alçou
me ilumina as ruas, que posso, agora,
me embrenhar nos becos, aventurar-me
nos labirintos por que tua voz roçou.
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