quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Renuncio a ser imortal


“O destino de um sábio é acabar estátua tarde ou cedo.”
(Raul Pompéia)

"...não se pode ficar preso a uma ideia do século 19"
(Letícia Bandeira de Mello)

Agora só escrevo pelo gosto
de engolir as horas que me restam.
Não penso em nada além.
Escrevo para o hic et nunc,
que agora, sendo mortal,
posso me permitir ser esnobe.
A imortalidade é burra.
Sei agora que Anchieta
estava certo
em escrever na areia.
O mar, levando o verso,
o fazia épico
por banhá-lo
no oceano de Camões,
e até, com sorte,
no mar de Homero.
Mas não quero ser imortal.
Com meus filhos criados,
passo a escrever
na areia da praia
a versalhada úmida.
Que ao menos
deleite um caiçara,
se ainda existirem,
e os corruptos,
que nunca se extinguem.
Acho que não farão
cócegas às moças, que essas,
só me farão cócegas
à memória displicente.
Um verso e uma água de coco
talvez não sejam mais
ao que o poeta caibam.
Talvez com os nacos
da aposentadoria
eu venha a ser padeiro
e escreva meus versos
em papel de pão, inspirado
no aroma das fornadas
e movido pelo estalo
crocante das cascas.
O verso lido ao pão francês,
se não impõe respeito,
ao menos se confunde
ao gosto da manteiga.
E mesmo que o destino
seja o lixo fedorento,
resta ao verso o sonho
de virar ciclo.
Mas ao desejo
de ser imortal
eu renuncio.
Não vale a pena.
Ser lembrado,
talvez um dia,
em boca alheia,
ou num canto de bibliografia
acadêmica, a mim não presta.
A memória afunda no Letes
e o papel o vento leva.
O virtual é o Universo,
bilhões de anos
de um brilho a outro.
O imortal vive na pedra.
Se a mim a negam,
porque não é do século,
será que o nome apagarão
de minha lápide?
E o que farão
com o busto de Minerva?

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