segunda-feira, 27 de março de 2017

Ode ao Estado



porque o Estado é uma loura de seios fartos
bafejada por senadores e deputados
que se comunicam por suas babas e arquejos
publicando as indecências nos Diários
Oficiais da orgia democrática e que obesos
sodomizam o Erário e em grande felação
pública e televisionada, enganchados
à tribuna, onde gemem suas taras reprimidas
nas cadeiras do plenário no instante que onanizam
os seus lúbricos discursos ao órgão do presidente.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O leitor do poema

Almada Negreiros

olha nesta imagem do poema
o teu olhar que lê o verso
onde entendes tua vida dita
assim em sons e reverberações.
vê o teu espanto que é achar
que eu possa de algum modo
conhecer os meandros da tua alma
escura sem nunca ter-te visto.
pensa então na impossibilidade
que é haver no mundo alguém
que reconheça a tua muda dor
sob os lençóis gelados do teu sono.
se a tudo entendes como enigma
e o estupor que tens levanta
as pálpebras do teu espírito hibernal
é que o poema diz o que a língua
que habituas o teu ser febril te calas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janela



a vizinha puxa a meia
à altura da virilha
e ajeita a calcinha na fenda

o vizinho lança sua vara de pesca

ela alça os braços, espia as axilas
e sacode os seios

o vizinho gira o molinete

ela sai da cozinha à sala
e do corredor vai ao quarto

o vizinho examina o anzol

a vizinha se espreguiça,
coloca-se em decúbito
e cerra os olhos
acho que sorrindo

o vizinho não fisga nada
que o dia não era para peixe.