terça-feira, 5 de setembro de 2017

5h30


Acordei-te pelo lado esquerdo da cama
Onde preferes porque sabes da dor
Em meu ombro direito. Levantaste
De lado como o recomendado
E caminhaste ao banho morno
Que lhe havia preparado às 5h20
Como é nas manhãs de agosto.
Separei tua roupa na cama inda
Recendente do cheiro com que sonhas
Tremendo às madrugadas frias
E esperei-te para vestir-te
Enquanto vistoriava teu cheiro novo
Da manhã e apanhava-te os cabelos
Com as mãos quentes para penteá-los
Por onze minutos ou 57 escovadas
De cima a baixo até as pontas
Esmiuçadas em meus dedos.
Às 5h45 sentaste para o pão
Aquecido com manteiga e o teu
Primeiro beijo deu-me ao gosto de café.
“Será maior o meu amor no dia 5”,
Anoto às 6h25, quando o carro
Vira a esquina e eu retiro com o braço
O orvalho da mureta onde retomo
As tarefas separadas para o dia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ode ao Estado



porque o Estado é uma loura de seios fartos
bafejada por senadores e deputados
que se comunicam por suas babas e arquejos
publicando as indecências nos Diários
Oficiais da orgia democrática e que obesos
sodomizam o Erário e em grande felação
pública e televisionada, enganchados
à tribuna, onde gemem suas taras reprimidas
nas cadeiras do plenário no instante que onanizam
os seus lúbricos discursos ao órgão do presidente.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O leitor do poema

Almada Negreiros

olha nesta imagem do poema
o teu olhar que lê o verso
onde entendes tua vida dita
assim em sons e reverberações.
vê o teu espanto que é achar
que eu possa de algum modo
conhecer os meandros da tua alma
escura sem nunca ter-te visto.
pensa então na impossibilidade
que é haver no mundo alguém
que reconheça a tua muda dor
sob os lençóis gelados do teu sono.
se a tudo entendes como enigma
e o estupor que tens levanta
as pálpebras do teu espírito hibernal
é que o poema diz o que a língua
que habituas o teu ser febril te calas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Janela



a vizinha puxa a meia
à altura da virilha
e ajeita a calcinha na fenda

o vizinho lança sua vara de pesca

ela alça os braços, espia as axilas
e sacode os seios

o vizinho gira o molinete

ela sai da cozinha à sala
e do corredor vai ao quarto

o vizinho examina o anzol

a vizinha se espreguiça,
coloca-se em decúbito
e cerra os olhos
acho que sorrindo

o vizinho não fisga nada
que o dia não era para peixe.