quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Movimento do mar

como a onda

que escava a praia



e engolindo-a

continuamente



jamais a engole

pois a retorna



umedecida

do sal sanguíneo



que o mar inquieto

retira ao fundo



de seu silêncio

azul-noturno



e revertida

ao primo leito



é ela ainda

mas água alheia



que mesmo seca

ao sol sedento



lhe salga o seio

de costa extrema



assim meu lábio

te molha a boca



que ao vento arqueja.

Caminho

“Aí escutarás o silêncio.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)



Fecha atrás de ti a porta que confinou o beijo por anos. Vai pela rua onde os pinheiros crescem abraçados em júbilo. Não repara as casas amareladas, as paredes cruas, as crianças descalças na calçada: são felizes no tempo que as renova. Segue em direção ao lago, onde talvez pudéssemos, um dia, nadar como peixes enlanguescidos. Mas não pare aí, que há de vir a estrada longa que margeia o rio e do qual não deves beber se a sede te ressecar os lábios. Não, tua água está distante, deves caminhar ainda entre os rostos turvos da manhã de cinzas. Se te pesar o sol, suspire sob a ponte; se os pés pedirem descanso, diga-lhes do leito na primavera coberta de flores. Vem pela via dos homens exaustos da guerra, por túneis e vales em que a cidade sangra. Sobe ao morro por onde meus pés deixaram rastros: de lá procuro-te há séculos. Segue o caminho do mar, devolve teus olhos às ondas e vem até meu peito, teu lar de ventos e calor, depor teu beijo exânime de tempo.

Teoria do conhecimento

ela deixou o ventre

em silêncio



os olhos ainda contidos

na escuridão materna



nem extirpada do elo

moveu os lábios



mas a licht, como pedira Goethe,

pulsada em sol no seu rosto



lhe revolveu os ventos

premidos no peito virgem,



que as velas, se as houvesse,

apagariam nos corredores.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Para o dia em que sorrimos juntos

(de Propércio)

Passe o dia sem nuvens, sopre o vento,
e as ondas descansem na praia.
Que a luz do dia não mostre a dor.
E tu, amada minha, gerada em auspício leito,
dedica ao deus o que lhe é justo.
Com água fresca espanta o sono
e prende ao alto a luzente madeixa,
o vestido põe - o que a meus olhos
primeiro encantou -, a fronte enfeita
de coloridas flores, e roga
que a beleza que te cobre
reluza perene ante meus olhos.
E quando o incenso florir o ar
e a casa toda reluzir na chama,
ponhamos a mesa, e que entre as taças
escorra a noite e olor de açafrão
perfume nossas faces cálidas. Que a flauta
soe débil, chamando à dança,
e tuas palavras se libertem de pudor.
O doce convite espante o sono ingrato
e a rua ressoe clara ao nosso rumor.
Que o destino lance os dados e nos diga
a quem flechou demais o menino alado.
Por fim, alta noite, pós tantas taças,
Vênus convidará aos sacros ritos
e em nosso leito celebraremos
assim selando o teu natalício.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tuas mãos abertas

(de Sinisgalli)

tuas mãos abertas me amanhecem
e a alvorada te induz a levantar-te
como uma vela fresca sobre meu corpo.
o sangue é feliz e me corre
a brisa, me cresce a manhã sobre o mar.
ao despertar as vozes da regata
desabam de extrema aventura.
a água é prado sob os pés.
florida, a luz de tuas mãos
é fria como as unhas.

(o sol te abre a mão soberba
e o tédio do dia
retém o calor da carne)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ledo engodo


“...é la Morte, infante.”
(de Pascoli)
“...tendo imitado na voz as esposas dos chefes argivos.”
(Odisséia, IV)

porque ouviu a voz
de sua amada distante

lançou-se
na espessa onda dos mares,
sombra dos montes

(não tinha a glória loquaz no coração,
mas a casa e o horto de altas árvores,
o vinhedo ensolarado e sua mulher)

chamou-lhe o abismo luminoso
e a boca, inteira, abriu
sem que punho forte o calasse

no fundo do ouvido apenas
sibilou, rajada marinha:

Querido! Querido!

Rua do Lago

(de Sinisgalli)

Bateu-te o coração mais forte
que as botas de jovens soldados.
Chegou-te o ruído no cheiro
dos cabelos, os belos dias
ao giro dourado do lago.
Empalidecem na neblina
a estrada da vila, as letras
bárbaras das placas, os campos
atrás dos chalés.
Recorda-os de um tempo gasto
e de uma nuvem de névoa
emerge a figura terna
aquela doce batida no peito
e a sombra quente no rosto.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Convite

(de Safo)

Capitula, Kátia, o terno Sid. Que tom tereis?
Batei tenaz ao peito, querida, e apartai as vestes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O poeta se antena ao Mundo e o Mundo se antena à raça

Navego nas ondas do progresso.
Tudo é ordem. Tudo é sucesso.
A tarja branca no meu pulso
é um abscesso.

Desço de meu navio cansado e regresso.
Nado como quem bóia n’O Processo.
Pareço bosta ao mar, pareço tudo
que despeço.

À praia sob a sombra descanso e me refresco.
Meu paladar tem sal. Ao Oceano cesso
de querer seu fundo. Aportei-me ao Mundo
e água fresca eu peço.

Adão

Sigo leve sem costela
e ela me mede. Aninho
meu coração nas trevas
porque me é descrédito.

Eva o suplica. De pernas firmes,
gigantescas rochas, concedo-o.
Ela o tritura entre os dedos,
seus olhos queimam-no
e ao devorá-lo arrota.

Sorrio porque a já sabia porca.

Obituário

no dedo o lápis
por um lapso
quebrou-se.

quedou-se morto
o rapsodo.

Brinde aos seus olhos Mulher com blusa verde - Amedeo Modigliani é, seus olhos verdes! eu sei não é só o que te situa no tempo, preciso ...