quarta-feira, 15 de julho de 2009

Convite

(de Safo)

Capitula, Kátia, o terno Sid. Que tom tereis?
Batei tenaz ao peito, querida, e apartai as vestes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O poeta se antena ao Mundo e o Mundo se antena à raça

Navego nas ondas do progresso.
Tudo é ordem. Tudo é sucesso.
A tarja branca no meu pulso
é um abscesso.

Desço de meu navio cansado e regresso.
Nado como quem bóia n’O Processo.
Pareço bosta ao mar, pareço tudo
que despeço.

À praia sob a sombra descanso e me refresco.
Meu paladar tem sal. Ao Oceano cesso
de querer seu fundo. Aportei-me ao Mundo
e água fresca eu peço.

Adão

Sigo leve sem costela
e ela me mede. Aninho
meu coração nas trevas
porque me é descrédito.

Eva o suplica. De pernas firmes,
gigantescas rochas, concedo-o.
Ela o tritura entre os dedos,
seus olhos queimam-no
e ao devorá-lo arrota.

Sorrio porque a já sabia porca.

Obituário

no dedo o lápis
por um lapso
quebrou-se.

quedou-se morto
o rapsodo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Acusa recebimento

Ela manda felicitações
para o meu casamento.
Escreve segura - Felicidades!-
como quem faz requerimentos.

Embora arrisque no post-scriptum
um contido grito de maledetto.

Aurora

Era o desejo. A claridade ruiva e vazia do seu calor me inflamava os dedos. Mal suportava. Inutilmente submisso, agitando as folhas do meu desalento na rua deserta, meus pés morenos seguiam as faíscas da mulher em nuvens. O amor conjugal deitado no Grajaú açoitava a minha culpa encarnada. Era menos que um cão chutado na rua: eu era a fatalidade. Meu trotar desprevenido, meus gemidos pasmados, tudo, naquele instante, estacou. Vibrava o espanto. Fremia, fascinada, a ante-sala de meu outro ser. Seus cantos eriçavam-me os pelos. Tornaram-me o gesto desafinado, surdo da impossibilidade de aventurar-me nos esgotos secos. O passo rendido ao cenho profundo da gravidade. Os olhos caídos na aprisionada natureza. Um sonâmbulo que ante a aurora encontra a mudez.

Brinde aos seus olhos Mulher com blusa verde - Amedeo Modigliani é, seus olhos verdes! eu sei não é só o que te situa no tempo, preciso ...