terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A linha augusta do campo - capítulo 9

O filho olha a foto do pai no bar. Os amigos, rostos sem nome, estão também sentados, enfileirados nas cadeiras de metal vermelho, olham todos para a câmera, com a rua ao fundo, os copos de cerveja à frente e muitas garrafas ao alto, nas prateleiras. O pai está do lado esquerdo, com a camisa listrada, preta e branca, a preferida, já esticada na barriga, o filho nota, embora o pai não se incomode, era a que mais gostava e a que o filho depois herdara e que lhe descia até as coxas, tão desproporcional, naquela época, o físico do pai em relação ao filho. Está de chinelos, era domingo, os braços cruzados, o rosto sorridente. É o único paramentado, embora outros ali também seguissem o mesmo time. Apesar das condições em que foi tirada, a fotografia não é ruim, o motivo foi bem enquadrado, a luz externa não escurece a interna, e as cores, apesar de já desbotadas pelo tempo e a qualidade da impressão, ainda são nítidas. O filho volta à camisa do pai, sua herança após a foto. As camisas sempre eram herdadas por ele e não pelo irmão, que não as apreciava, e mesmo quando o filho se incomodasse com os tecidos, geralmente sintéticos e quentes, as usava com constância, costumava alargar os colarinhos apertados, repuxava o tecido a toda hora, odiava a poliamida, as meias que tinha não usava, mesmo a mãe brigando, insistindo que duravam e lavavam melhor que as de algodão, mas o filho tinha esses desconfortos na pele, o que abafasse, coçasse, pinicasse, os ivanhoés da infância, enfiados a custo na cabeça e vigiados para não serem arrancados, as blusas de lã compradas em lojas populares usadas como inimigas e retiradas com alívio, talvez preferisse viver nu, os índios viveram enquanto puderam, o país é quente, eram argumentos fortes que a mãe ignorava, ela que era ruiva. Mas as camisas do pai ele usava, mesmo quentes e abafadas, principalmente a branca, usava até esgarçarem, desbotar o escudo, apresentarem furos. A da foto usou por dez anos, não diariamente, até que ela mesma não mais o permitisse, exausta de tanto uso, o que a mãe alegremente acatou sem demonstrar, poderia dar à caridade mas o estado era lastimável e foi mesmo ao lixo, a mãe nem torcia para o time, criticava a multiplicação daquele escudo na casa, nas roupas, nos acessórios, nos adesivos, a mãe não compreendia, ou talvez quisesse que fosse diferente, que o símbolo era a ponte, a palavra que ligava o pai ao filho, a comunicação muda, o meio e a mensagem, o elo entre os dois. O preto e o branco, nunca contrários, jamais se negando um ao outro, na ausência de um o outro lembrando-o, por isso as camisas eram a herança que o pai legava ao filho, não havia muito mais a legar, os anos e planos deram conta de eliminar as posses, mas as camisas ficavam, e o filho as honrava, gastava-as até o fim, usava nos fins de semana, jogava com elas, compreendia-as até mais que o pai, que só as usava em dias de jogos importantes, a relação era outra, ficavam dobradas no fundo das gavetas, de lá saíam bem pouco, por isso chegaram ao filho tão conservadas, que as consumiu no corpo, muitas vezes lavadas e novamente vestidas, que a mãe até brigava pela frequência, não tinha outra roupa, você não está no estádio, a mãe não entendia ou não queria entender que as camisas deviam ir se gastando com o tempo de tanto uso, de tanto estar à pele, em silêncio, como se gastam, entre pai e filho, as palavras.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Divagação sobre o espaço

quando o amor se foi
ele ficou sem saber
bem o que fazer
saía de casa sem rumo
andava à toa
entrava em qualquer lugar
e saía sem pedir nada
pensava nela o tempo todo
e até chorou no ônibus
(uma vez e pouco,
que os outros olhavam
com pena, mas sem acudir
nem perguntar)

o dia todo era uma dor
uma vontade de ligar
de bater na casa dela
dizer uma frase forte
e ela toda se entregar

e aí era a imaginação de pernas

mas pensava no ridículo
na cara de cu que ela faria
e se tivesse um outro cara
pelamor! eu não preciso,
e andava na cidade
vendo a hora mais tardia
de voltar para casa

e voltava e o outro dia
era quase a mesma coisa
a dor não saía e o pensamento
teimava em repetir
em qualquer esquina
o sorriso da cara dela
que era belo, admitia

não sabe de onde, um dia,
lhe veio que o cheiro dela
não lhe era apetecível
que dizia suas ideias
muito antes repetidas
invertidas, maquiadas
não frequente sem sentido
e mais isso, mais aquilo
e tudo se amontoando
no encadeamento dos dias

pensou, deve ser o amor
dando o adeus definitivo,
sem dor ou mágoa
até um pouco ferino
e eficaz na injustiça
limpando qualquer migalha
deixando o espaço vazio

o que ele não entende
e contraria a lei da Física
como pode um lugar que é vago
não deixar que um outro corpo
se acomode, ocupe, invada,
como é que pode o vácuo
se apossar assim do espaço
como latifundiário

improdutivo, mas proprietário?

sábado, 29 de agosto de 2015

Pensado como soneto


eu lhe tinha feito muitos poemas
do tipo “teus olhos...” ou “os lábios...”
posto “cerejas” e “centelhas”, e não “procelas”
enquanto à janela se orgulhava

de si talvez, da beleza oferecida em versos,
que embora fracos, de andamento trôpego,
ainda assim tinham um quê de sincero,
que não garante a poesia mas rendiam beijos.

no dia em que (nada a ver com os poemas)
resolveu mudar de arte, e o amor que eu sentia
(gostara de amar) forçava os muros do peito,
lhe fiz o derradeiro poema, sentido, pungente

(só de lembrar-lhe como dançava na tumba
me enche os dedos de orgulho) para o momento:
ela pediu-me o papel, mas rasguei-o.

a merda é que agora não lembro
as palavras que usei. Queria mostrar a vocês


o poeta que fui. Como era, o começo, mesmo?

Sorôco

Sorôco, sua mãe, sua filha
me levou de novo às lágrimas.
Nem completa quatro páginas
a edição que tenho em casa.
E os coitados dos alunos
- os que não tinham dormido -
me olharam consternados
de meus súbitos soluços
e disseram: "Olhem só!
O Sidnei está chorando!"
Como se a lida maluquice
no professor fosse entrando.

Mas não me sai da cabeça
que o dia em que ler o conto
sem marejar um olho
saio da escola cantando.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A musa partida


Afoguei o verso à boca.
Ela me encarava à toa.
Não direi! Não farei isso!
Um poema é um desperdício.

Ela esperou. Não disse nada.
Só me olhava sua risada.
Eu tremia com minha língua.
Não é hora de poesia!

Mas então, não aguentei
e em dez versos eu rimei
os seus olhos, seus cabelos
e outros clichês de permeio,

o sexo e etcetera,
tudo que ali já era,
para enfim no arremate
mandá-la aquilo que a parte

e destilar toda minha ira,
só que o ritmo desandaria
e ainda que o verso minta

não se pode perder a poesia.

domingo, 5 de abril de 2015

Durante a madrugada


Acordei às três para fazer
quatro estrofes de um poema.
Um sonho sugeriu-me
fazê-lo sobre Helena.

Não a de Troia, a da Vila Madalena,
a de olhos de bezerra,
de voz grega, de cheiro de almíscar,
de dentes perfilados

como estrelas em cortejo,
de ossos que estalavam,
de unhas que inscreviam
o amor em minhas costas


como os muros da cidade
arquivam pensamentos.
Mas o sono chaveou a memória
e capitulou o poema.

Sob as nuvens



os teus cabelos voam
no sábado de aleluia
no céu como uma cama
o meu amor descansa

não fosse assim azul
mas pejo de castanho
recordaria os olhos
que baixas quando amamos

andamos, mas tu voas
e vamos tão distantes
que meus pensamentos
no chão se derramam


mas vê o horizonte
curvo em que flutuas
e lembra de meus ombros
que aguardam o teu pouso.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Adriana Calcanhotto, cantora brasileira

“A voz de Adriana, empurrando a tarde...”
(Ondjaki)


e a voz de Adriana tomou a sala
da gente mal educada que enquanto
ela cantava cochichava sobre o seguro
do carro e brincava com as telas
dos celulares pois não se contentava
com o miado metálico que ela, diva,
desde o tempo que criara Enguiço,
ao fim dos refrãos aprimorava
alheia a quem lhe roubava a imagem.

e a voz de Adriana (que não me conhece
nem nunca leu-me de perto ou mesmo
seu timbre de manga quando fala
umedeceu meu nome ao telefone):
“É, Sidnei, não sei quem és, de onde vens.
Não sei que encontras na minha voz
que tuas tardes de verso e vinho
se assentem como acentos nessas sílabas
em si frágeis, nebulosas e finitas.”

pois, de ouvidos deitados sobre o balcão,
sem lhe ver os olhos celestes ou as dobras
do vestido verde e a luz recolorindo-a
a cada música, apesar da mísera fagulha
de Adriana que me chegava à espinha
pela garganta elétrica dos microfones,
passava então em minha cabeça
quase que naturalmente
recebê-la em meu apartamento

para retribuir-lhe em poemas ou um brinde
oferecer por cantar em vinis e cds
desde os anos noventa quando então
Adriana dourava os cabelos com a cor
que eu pensava ser própria de estrelas

que ela nunca quis ser porque é sereia.

domingo, 3 de agosto de 2014

Dicotomias

1

ter-te apenas
corpo
sem luz
e som
mas só
a geometria
do teu respiro
o peso oblíquo
de tua gravidade
a solidez
túrgida
(em meu peito)
do teu mover-se
corpo apenas
contorno
do meu beijo
e ainda
o cheiro
do teu fruto
aberto
que me doa
o sumo
do teu gosto

*

mas não
a luz da cor
o refratário
lance
do teu cálido
estupor
o revérbero
brilhante
do teu corpo
inferior
nem a fagulha
aguda
de tua palavra
a centelha
ofuscante
do pensamento
não o teu ser
abscôndito

*

só
o teu corpo
decúbito

2

e ser-te apenas
cor, vibrar-te
a córnea
e a têmpera
ser-te a voz
melódica
na tua palavra
prenhe
ressoar-te
o harmônico
do pensamento
na tua esfera
perfeita
e assim
ser-te
teu hemisfério
porção que vaga
o útero
azul e vago
do teu infinito
ser-te enfim
o ente

*

mas não
tua memória
da terra
encharcada
o perfume eólico
do teu seio
o teu lugar
no espaço
(rastro do teu ser
no hall da vida)
não o afastar-me
na tua pele
(muro
de lamentos)
nem o espanto
sanguíneo
que te tinge
o ventre
(teu flamejante
viço)

*

só o ser
enojado
de finito

Há 2 meses

há dois meses ela não usa a geladeira.
o vizinho disse que era o termostato,
mas ela não acreditou nas palavras dele.
tentou catorze vezes a autorizada,
mas os nãos e desnãos do atendente
a puseram no estado que ora vemos.

há dois meses não usa a geladeira
e não sabe o gosto da sobremesa.
não mais fez o espasmo de surpresa
quando via o vazio das prateleiras.
ou a alegria dos dias de feira
com a verdura brilhando e a manteiga
requerendo um lugar à mesa.

há dois meses não usa, come em frente,
num restaurante por quilo, com a Teresa,
que embora não tenha problemas
de geladeira
há muito mais tempo reclama do peso.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O pesadelo hermenêutico

porque era vago
o teu sentido
(o idioma há muito
me era extinto)
lancei-me a ler-te
em dicionário
codificando
os teus verbetes.

mas quando a frase
remodelada
se desnudava
em tema, título
- e a luz velava
teu significado -
tua mão puxou-me
o livro. E o texto
foi-se.

Brinde aos seus olhos Mulher com blusa verde - Amedeo Modigliani é, seus olhos verdes! eu sei não é só o que te situa no tempo, preciso ...