o chão se abrirá
e verterá
sobre as águas
do lago
Paranoá
o seu betume
fervente
enquanto os
docentes
às suas margens
lerão em voz alta
para os de terno
que se desesperam
os versos de Dante
no círculo oitavo
do Inferno.
o chão se abrirá
e verterá
sobre as águas
do lago
Paranoá
o seu betume
fervente
enquanto os
docentes
às suas margens
lerão em voz alta
para os de terno
que se desesperam
os versos de Dante
no círculo oitavo
do Inferno.
homens perderam-se
por teus ombros
Vênus de Milo
sem nunca
terem sentido
teu abraço
como outros
perderam
a cabeça
pela cabeça
ausente
da Samotrácia
é culpa
que eu a queira
neste poema
para apenas
percorrê-la
o Peloponeso?
ela me jogaria aos
cães.
ela pisaria no meu
rosto
após sangrá-lo à
espada
e lançaria o meu
cadáver
no fundo de uma
vala.
ela queimaria minha
carcaça
e desapareceria com
as cinzas.
ela
me enforcaria na
prisão
me mataria em
suicídio
ela chamaria o
pelotão
para o meu
fuzilamento
ela arrancaria a
minha pele
me engasgaria os
gritos
me amarraria ao
pelourinho
e, sim,
fustigaria-me.
ela me daria
choques
me esquartejaria em
praça pública
arrancaria os meus
testículos
bateria em minha
cara
e cuspiria em meus
escritos
ela
me rasgaria os
livros
atormentaria meus
sentidos.
ela, se pudesse,
me alvejaria o
espírito.
mas isso, ela não
pode
por isso, chafurda
e grunhe
por isso, remói e
engole.
O pai está com o filho e os dois encaram a câmera. Em toda a vida, é a única fotografia que os une, só os dois no mesmo enquadramento. De fato, o filho não lembra de outra tão nítida, ou que estejam apenas ele e o pai, ou que a foto tenha sido tirada exclusivamente para mostrar os dois, pai e filho posando para quem os fotografa. Lapso de memória do filho, pois há outra, só com os dois, não tão bela como esta, nem tão natural, pai e filho sentados, o filho no braço do sofá, o corpo inclinado para o pai, que larga um sorriso discreto. Mas aquela é acidental, roubada numa distração dos dois, como um flagrante. Esta não, esta foi pedida, pensada para o momento e para a luz que há. Faz calor, dentro e fora da imagem, no interno e externo da cena, no interior e exterior do narrado. O sol é forte, o verão é típico. Os dois sorriem como costumam, sem mostrar os dentes, acham a arcada menor do que a boca, como se ali flutuassem, é estranho, embora haja beleza, e antes foram sempre assim, de sorriso curto, mais satisfação que alegria, não menos feliz que esta, não menos segura que aquela. De fato, vão entre o sério e o jocoso e o riso é só um rascunho do que sentem, esboço concebido em pudor, que os dois sempre acharam que sentimento dá-se aos poucos, em silêncio, talvez os olhos nos digam mais do que diz a boca, que é próprio dos olhos serem mais eloquentes, e era próprio dos dois usarem pouco a fala. Os dois usam óculos, do pai bem colado ao rosto, cobrindo a sobrancelha, o aro grosso e marrom, os olhos bem enquadrados, centrais, já um pouco caídos nos cantos, pela idade certamente, que melancólicos nunca foram, o pai não era do tipo, as pálpebras um pouco baixas, a claridade é forte e a luz vem da esquerda da foto, justo onde está o pai, mas seu olhar é afetuoso, e brilha. O filho usa os óculos sobre o dorso do nariz, tangenciando as linhas superiores do olho e do aro, que é preto e fino, de metal, mais leve que o do pai, que os olhos são também menores, mais amendoados, embora estejam quase inteiros na sombra e se abram mais que a boca, são fixos e incisivos ao fotógrafo, mas ainda assim são convidativos e estimulantes. E brilham. Há mais que se possa dizer da foto, o pai está em pé, o filho, que é mais alto, apoiado em um banco, sua mão direita ao ombro do pai, que está mais firmado ao chão, as mãos cruzadas sobre a barriga saliente, que em outros tempos já fora até mais destacada, enquanto o filho tem mais ângulos, o corpo mais torcido, outra geometria, um pé solto no espaço, o outro pela metade encostando ao chão, apenas dando equilíbrio. A postura do pai é rija, a do filho fluida, mas ambos estão leves, como se pairassem no quadro, como se a pose os elevasse acima, uma vez que os olhos de quem vê a foto inutilmente resistem a não se elevarem, a não fitarem o rosto dos dois. Ao ver a foto, o filho se sente fotogênico enfim, o que sempre invejara nos retratos do pai, que nunca fora modelo, artista de televisão, nunca posara para propagandas de canetas, mas sempre ficava bem nas fotos, talvez o enquadramento, a proporção das linhas, a naturalidade diante da câmera, o filho nunca soube explicar direito, mas admirava os retratos do pai, enquanto os dele eram raros e arredios, fugia das solenidades de fotos, dos momentos íntimos da família, ou quando era fisgado se enfiava entre os maiores, escondia-se e só parte da cabeça, ou do corpo, nos podia comprovar que ele estava na foto, a mãe teve dificuldades de encontrar-me alguma, três de quando era criança, nenhuma da adolescência, exceto as de rosto que iam para documentos, todas amareladas, para as quais o filho sempre tinha uma ironia, o mau gosto nas roupas, o ridículo das poses, o cabelo desgrenhado, a magreza indisfarçável, a mãe retrucava que as roupas eram do tempo, as poses eram dele, que não queria tirar a foto, o cabelo sempre fora rebelde e a magreza a mãe tentara de tudo, até vermicida lhe enfiara na boca, mas ela gostava dele assim mesmo, que as mães não se importam com a feiura dos filhos, são seus filhos e basta, mesmo que as fotos não tenham graça, mesmo que pareçam ridículas com o tempo. Mas dessa foto com o pai ele gostou, está bem nela, quase tão bem como está o pai, embora o pai ainda se recuperasse e carregasse um leve abatimento, que a magreza incomum denunciava, mas a diferença entre os dois nem é relevante, nem há qualidades que eu queira destacar nesse momento, a foto é boa, colorida e luminosa, e todo o espaço preenchido de silêncio é eloquente. Pai e filho olham além da cena, além do que os captura, a fotografia tem essa absurda qualidade. Naquele dia falaram pouco entre eles, embora a conversa tivesse sido disposta à mesa como iguarias. Pouco também se falaram antes do dia da foto, que o filho telefonava pouco. Pouco se falaram nos dias depois da foto, que os hábitos de ambos não mudaram muito. Algo na imagem, atrás das cores, na geometria das poses, na assertiva dos olhos, nos comunica. Talvez as palavras estejam em negativo, talvez precisem de filtros, talvez o fotógrafo se obrigue a nos explicar sua arte, talvez o que pouco dizem pai e filho precise ser visto nos pontos de luz e de sombra.
O filho olha a foto do pai no bar. Os amigos, rostos sem nome, estão também sentados, enfileirados nas cadeiras de metal vermelho, olham todos para a câmera, com a rua ao fundo, os copos de cerveja à frente e muitas garrafas ao alto, nas prateleiras. O pai está do lado esquerdo, com a camisa listrada, preta e branca, a preferida, já esticada na barriga, o filho nota, embora o pai não se incomode, era a que mais gostava e a que o filho depois herdara e que lhe descia até as coxas, tão desproporcional, naquela época, o físico do pai em relação ao filho. Está de chinelos, era domingo, os braços cruzados, o rosto sorridente. É o único paramentado, embora outros ali também seguissem o mesmo time. Apesar das condições em que foi tirada, a fotografia não é ruim, o motivo foi bem enquadrado, a luz externa não escurece a interna, e as cores, apesar de já desbotadas pelo tempo e a qualidade da impressão, ainda são nítidas. O filho volta à camisa do pai, sua herança após a foto. As camisas sempre eram herdadas por ele e não pelo irmão, que não as apreciava, e mesmo quando o filho se incomodasse com os tecidos, geralmente sintéticos e quentes, as usava com constância, costumava alargar os colarinhos apertados, repuxava o tecido a toda hora, odiava a poliamida, as meias que tinha não usava, mesmo a mãe brigando, insistindo que duravam e lavavam melhor que as de algodão, mas o filho tinha esses desconfortos na pele, o que abafasse, coçasse, pinicasse, os ivanhoés da infância, enfiados a custo na cabeça e vigiados para não serem arrancados, as blusas de lã compradas em lojas populares usadas como inimigas e retiradas com alívio, talvez preferisse viver nu, os índios viveram enquanto puderam, o país é quente, eram argumentos fortes que a mãe ignorava, ela que era ruiva. Mas as camisas do pai ele usava, mesmo quentes e abafadas, principalmente a branca, usava até esgarçarem, desbotar o escudo, apresentarem furos. A da foto usou por dez anos, não diariamente, até que ela mesma não mais o permitisse, exausta de tanto uso, o que a mãe alegremente acatou sem demonstrar, poderia dar à caridade mas o estado era lastimável e foi mesmo ao lixo, a mãe nem torcia para o time, criticava a multiplicação daquele escudo na casa, nas roupas, nos acessórios, nos adesivos, a mãe não compreendia, ou talvez quisesse que fosse diferente, que o símbolo era a ponte, a palavra que ligava o pai ao filho, a comunicação muda, o meio e a mensagem, o elo entre os dois. O preto e o branco, nunca contrários, jamais se negando um ao outro, na ausência de um o outro lembrando-o, por isso as camisas eram a herança que o pai legava ao filho, não havia muito mais a legar, os anos e planos deram conta de eliminar as posses, mas as camisas ficavam, e o filho as honrava, gastava-as até o fim, usava nos fins de semana, jogava com elas, compreendia-as até mais que o pai, que só as usava em dias de jogos importantes, a relação era outra, ficavam dobradas no fundo das gavetas, de lá saíam bem pouco, por isso chegaram ao filho tão conservadas, que as consumiu no corpo, muitas vezes lavadas e novamente vestidas, que a mãe até brigava pela frequência, não tinha outra roupa, você não está no estádio, a mãe não entendia ou não queria entender que as camisas deviam ir se gastando com o tempo de tanto uso, de tanto estar à pele, em silêncio, como se gastam, entre pai e filho, as palavras.
Brinde aos seus olhos Mulher com blusa verde - Amedeo Modigliani é, seus olhos verdes! eu sei não é só o que te situa no tempo, preciso ...