segunda-feira, 14 de março de 2011

A ilha

Ninfa a pedir autógrafo

"Sigamos estas deusas e vejamos

se fantásticas são, se verdadeiras."

(Lusíadas, IX)





As que vinham de ermas terras,

o olhar pendendo ao chão,

logo o nariz alteavam

ao claro azul retilíneo

estampado no horizonte;

outras de próximas praias

que a grossas mãos dardejantes

espalhavam-se como espuma,

a fronte já tinham suprida

de altiva amplidão;

todas, nas céleres naves,

em plenirruidoso coro

entoavam lépidos cânticos.

Saídas de suas naus festivas

com os sons acidulando

o ar marinho,

as vozes se acentuavam

em líquidos diminutivos.

Como reses que bovinas

ao cercado que as abriga

espremem-se na entrada,

as ninfas ombreavam-se na praia.



Reluziam nas brônzeas espáduas,

em geral, fios alongados de ouro,

embora as douradas nucas

pudessem, no cegante brilho,

espargir sombras noturnas.

Olhares fulgentes, graúdos,

de fundos tons anilados,

encimavam os tecidos

sutilmente esticados.

Assim sorriam, seriadas,

aos que na areia as tocavam.



Noutras naus, de duras linhas,

vieram os heróis velozes.

O peito inflado de glórias,

os braços férreos, o rosto

cumulado de risos,

o pensamento anotado

em lacunosos papiros,

dos barcos desciam aos dois

que o espaço da proa era parco

pro escasso ondear de ombros largos.

Assim sorriam, seriados,

aos que cortavam o caminho.



Da veste leve apartados,

a macho e fêmea resumidos,

- que demais adornos, dons, virtudes,

do humano senso presumidos

a inútil carga não carregam -

heróis e ninfas se embrenham

na fausta e venérea ilha.



"Que famintos beijos na floresta!"

Que mão honesta! Que túmida

natureza a cena oferece!

Que flor de mágoa! Que dor

abrupta remove os fios da testa!

Que fundo sopro expulsa

o ar de musgo do peito!

Que fulva fala! Que gérmen?

que fruto? que o olho colhe!



O riso de Deus tonante

(olho-que-tudo-vê)

ávido de hecatombes

ressoa na caixa argêntea.

Ninfas e heróis ululam

na noite de lua ausente.

Ao todo azul poderoso

dançam como guerreiros

atravessados de lança,

ou como animais

feridos para a matança,

ou homens mesmo

contorcionados no instante

que dão de si na cloaca.