terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tuas mãos abertas

(de Sinisgalli)

tuas mãos abertas me amanhecem
e a alvorada te induz a levantar-te
como uma vela fresca sobre meu corpo.
o sangue é feliz e me corre
a brisa, me cresce a manhã sobre o mar.
ao despertar as vozes da regata
desabam de extrema aventura.
a água é prado sob os pés.
florida, a luz de tuas mãos
é fria como as unhas.

(o sol te abre a mão soberba
e o tédio do dia
retém o calor da carne)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ledo engodo


“...é la Morte, infante.”
(de Pascoli)
“...tendo imitado na voz as esposas dos chefes argivos.”
(Odisséia, IV)

porque ouviu a voz
de sua amada distante

lançou-se
na espessa onda dos mares,
sombra dos montes

(não tinha a glória loquaz no coração,
mas a casa e o horto de altas árvores,
o vinhedo ensolarado e sua mulher)

chamou-lhe o abismo luminoso
e a boca, inteira, abriu
sem que punho forte o calasse

no fundo do ouvido apenas
sibilou, rajada marinha:

Querido! Querido!

Rua do Lago

(de Sinisgalli)

Bateu-te o coração mais forte
que as botas de jovens soldados.
Chegou-te o ruído no cheiro
dos cabelos, os belos dias
ao giro dourado do lago.
Empalidecem na neblina
a estrada da vila, as letras
bárbaras das placas, os campos
atrás dos chalés.
Recorda-os de um tempo gasto
e de uma nuvem de névoa
emerge a figura terna
aquela doce batida no peito
e a sombra quente no rosto.