domingo, 24 de abril de 2011

Leônidas

porque o pé abriu-se para as nuvens

como se fosse um pássaro saciado de terra

e do fruto partido ao chão tivesse lavrado

sua semente de voo flamejante

rumo ao azul sem linhas, ao campo

sem rastro, como o fio de uma espada

partindo o céu ao meio sem sangrá-lo

com a estreita lei da gravidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Meu tio

meu tio é um sujeito estranho

que manca de uma perna

perdida aos 18 anos.

é calvo e magro e tanto

que quantas vezes vi o cinto

sustentando a perna mecânica.

sua esposa morreu atingida na queda de um muro.

meus primos sempre vi pouco.

meu tio gosta de pinga bem mais que cerveja.

joga sinuca, mas sofre de amor pelas cartas.

quando minha mãe o chamava

a passar uns dias em casa

jogávamos muito, sempre buraco

horas a fio na madrugada.

eu tinha 14, ele perdia.

os tragos que dava eram apenas de água.

jamais falamos de poesia.

Leitura de Helena

ele enrugava a testa

sobre o livro aberto

quando ela entrou



- dias antes, cerrara

o pensamento ao redor

dos livros empilhados –



mas ela entrou

pinçando o chão

como uma vespa



ele viu os pelos

envergarem

como campos de trigo



e um aroma

de lírios triturados

roçar-lhe a boca



e aí alçou os olhos

num gesto lento

como se as palavras



pesassem na retina;

como se vestissem

novas luzes



as pálpebras caíram

um instante;

ela sentou-se



a um palmo de sua

boca entreaberta;

ele manteve a mão



estirada na página

como se náufrago

na tábua



luziam as pupilas

como facas

e os olhos se esforçavam



em puxar o rosto;

ela ajeitou o cabelo

atrás da orelha



a voz exalava

um hálito fresco;

ele abria as narinas;



falando, ela sorria;

ele colhia as palavras

e as juntava



como feixes

sobre os livros que lia

ajeitava-as



como epígrafes;

no entanto,

ela as dera



com intenção nas entrelinhas:

verbos que no lábio

soam como a sibila.