sábado, 29 de agosto de 2015

Pensado como soneto


eu lhe tinha feito muitos poemas
do tipo “teus olhos...” ou “os lábios...”
posto “cerejas” e “centelhas”, e não “procelas”
enquanto à janela se orgulhava

de si talvez, da beleza oferecida em versos,
que embora fracos, de andamento trôpego,
ainda assim tinham um quê de sincero,
que não garante a poesia mas rendiam beijos.

no dia em que (nada a ver com os poemas)
resolveu mudar de arte, e o amor que eu sentia
(gostara de amar) forçava os muros do peito,
lhe fiz o derradeiro poema, sentido, pungente

(só de lembrar-lhe como dançava na tumba
me enche os dedos de orgulho) para o momento:
ela pediu-me o papel, mas rasguei-o.

a merda é que agora não lembro
as palavras que usei. Queria mostrar a vocês


o poeta que fui. Como era, o começo, mesmo?

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