sábado, 29 de agosto de 2015

Pensado como soneto


eu lhe tinha feito muitos poemas
do tipo “teus olhos...” ou “os lábios...”
posto “cerejas” e “centelhas”, e não “procelas”
enquanto à janela se orgulhava

de si talvez, da beleza oferecida em versos,
que embora fracos, de andamento trôpego,
ainda assim tinham um quê de sincero,
que não garante a poesia mas rendiam beijos.

no dia em que (nada a ver com os poemas)
resolveu mudar de arte, e o amor que eu sentia
(gostara de amar) forçava os muros do peito,
lhe fiz o derradeiro poema, sentido, pungente

(só de lembrar-lhe como dançava na tumba
me enche os dedos de orgulho) para o momento:
ela pediu-me o papel, mas rasguei-o.

a merda é que agora não lembro
as palavras que usei. Queria mostrar a vocês


o poeta que fui. Como era, o começo, mesmo?

Sorôco

Sorôco, sua mãe, sua filha
me levou de novo às lágrimas.
Nem completa quatro páginas
a edição que tenho em casa.
E os coitados dos alunos
- os que não tinham dormido -
me olharam consternados
de meus súbitos soluços
e disseram: "Olhem só!
O Sidnei está chorando!"
Como se a lida maluquice
no professor fosse entrando.

Mas não me sai da cabeça
que o dia em que ler o conto
sem marejar um olho
saio da escola cantando.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A musa partida


Afoguei o verso à boca.
Ela me encarava à toa.
Não direi! Não farei isso!
Um poema é um desperdício.

Ela esperou. Não disse nada.
Só me olhava sua risada.
Eu tremia com minha língua.
Não é hora de poesia!

Mas então, não aguentei
e em dez versos eu rimei
os seus olhos, seus cabelos
e outros clichês de permeio,

o sexo e etcetera,
tudo que ali já era,
para enfim no arremate
mandá-la aquilo que a parte

e destilar toda minha ira,
só que o ritmo desandaria
e ainda que o verso minta

não se pode perder a poesia.

domingo, 5 de abril de 2015

Hermenêutica de J.



Como uma capa de folhas
Verde em seu brotejar
De tenra simplicidade
Que a mão de leitor
Surpreso explora
Como um veludo
E abre o in folio
Lento, com olhos
De quem não quer
Espantar pássaros,
E traga o frescor da página
Como quem colhe frutos
E abre o livro
Como a acariciar a relva
Que estala à tarde
E as letras, sonoras,
Sussurram úmidas
Como a brisa
Que curva o verão
Assim teu corpo abriu-se
A minha compreensão
E os meus dedos, ledos,
Lendo as linhas, pousando
Ao final das frases
O seu espanto
As flores me embaralhando
O pensamento
O respirar entre os capítulos
Apaixonando-me do livro
Que agora não quero lê-lo
Chegar ao fim e deixá-lo
Na prateleira
Então
O tenho aberto
Na escrivaninha
E todo dia volto

Ao frontispício.

Durante a madrugada


Acordei às três para fazer
quatro estrofes de um poema.
Um sonho sugeriu-me
fazê-lo sobre Helena.

Não a de Troia, a da Vila Madalena,
a de olhos de bezerra,
de voz grega, de cheiro de almíscar,
de dentes perfilados

como estrelas em cortejo,
de ossos que estalavam,
de unhas que inscreviam
o amor em minhas costas


como os muros da cidade
arquivam pensamentos.
Mas o sono chaveou a memória
e capitulou o poema.

Sob as nuvens



os teus cabelos voam
no sábado de aleluia
no céu como uma cama
o meu amor descansa

não fosse assim azul
mas pejo de castanho
recordaria os olhos
que baixas quando amamos

andamos, mas tu voas
e vamos tão distantes
que meus pensamentos
no chão se derramam


mas vê o horizonte
curvo em que flutuas
e lembra de meus ombros
que aguardam o teu pouso.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A cidade futurista

a cidade é um pomar de radares
se Marinetti nos visse a velocidade
questionaria o que dera errado

as ruas se abrem às bicicletas
as calçadas se alargam, os pedestres
têm preferência no trânsito

que futuro fizeram, brame o italiano,
nascido no Egito, em Alexandria,
síntese da civilização antiga

abolimos o dinamismo, meu poeta,
e embora grassem as bicicletas

a plenos pulmões voa o fascismo.