sábado, 9 de julho de 2011

De um anúncio de bodas

era difícil a pergunta

anos depois de ter

o coração incensado

no teu sorriso de nuvem

e agora revê-lo alvo

como outrora aberto

a minhas mãos inda

incompletas do gesto

de moldá-los, era como

solfejar a melodia

soterrada pelas noites

ruidosas de memórias

no início do espetáculo.



mas tão pungido foi o azul

dos teus olhos nos meus

dedos trêmulos que o sangue

ardeu-me a mente entulhada

de desejos e o teu calor

de voz gravado em meu leito

de verdades centelhou em meu

rosto cativo ao teu intento.



só que não era o nosso tempo

o mesmo nos relógios, e os teus segundos

de partilha escorreram sob a chuva

rara do céu marchetado de julho.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Para uma nova história da filosofia


O Estagirita, busto romano, séc. I d.C.

 
Mas Lutero o chamou

de sicofanta, de bode fedido,

enquanto os aristotélicos

diziam o que ele havia dito

à revelia das evidências;

e se há por certo que o pai Tomás

se indispusera com os sábios árabes

menos pelas ideias que pelos votos,

ninguém pode, afinal, compará-lo ao bode,

pois não há códice que o assemelhe

aos beiços cavernudos de Sócrates.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ocorrência

se sabe que havia

oito tiros nas costas

e o corpo no mato

jogado pelos capangas

após a discussão

sobre quem errara

quando o vigia do banco

sacou o 38

e expirou ali

junto à porta de vidro

não sem antes

desferir três tiros

e um deles na coxa

do que estava

junto ao caixa,

o motorista,

que estacionara

frente à agência

o Santana roubado

azul metálico,

rodas de liga leve

e os bancos altos

que a loirinha

a chamada

de gostosa

ingenuamente

cobiçara

quando os quatro

cruzavam

a Nove de Julho

paquerando

as encorpadas

após repassado

o plano do assalto

na loja de tintas

ainda aberta

àquela hora

apesar de viva alma

entrar no intuito

de embelezar a vida

entre quatro paredes

enquanto se cheirava

cocaína no banheiro

dos fundos e sorria-se

da vida nem assim

tão franca

mente

diluída nem também

trágica, mas da pequena

Carolina, quatro anos,

que, dizia-se,

o humor da mãe,

o que era o mote

dos sorrisos estampados

quando as armas

se fechavam

após serem revisadas.

Partidas

você partiu assim

após o réveillon


sem muita explicação;


um “ah!” ou “você sabe”,


“eu é que tenho problema”


e fôrmas desse tipo!


não desdenhou


porque não queria


e se eximiu de dizer


que tinha coisa melhor




mas tinha o script


e abriu-me o sexo


de samaritana


quiçá o receio de dizer


que tinha coisa melhor


espécie de taxa


de encerramento




e aí tudo bem


“fico sem dever nada


para ninguém”


um tchau e um beijo


e aquele travo


na garganta


quando te vejo




por este fio


que não desata


ainda te amo


ou marca o corpo


a posse árdua


do passado?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ao ler a página de rosto

Após lido, o livro

é lançado no lixo.

“Zumbirão as moscas!”. Mas

lembra que estavam mortas.

Rememora os versos. Há vezes

que soam leves, e outras

como hipopótamos – embora

o símile não venha dele

se arca ao peso do fruto

podre. Ainda assim

se volta ao vate e vê

o verso à flor do Verbo,

o pensamento a soar

à oitava do canto,

a voz do vernáculo

a entoar as ideias,

a vera amplitude

encarnada no arranjo

das letras. Retoma

o poema. Desfolha-o

na mesa, manchado

de manteiga. Ao lê-lo,

reúne os elos esparsos

na mente, como o vento

recolhe as folhas no desejo

de as vestir em árvores.

Tão logo cessa

o alestamento

as folhas caem

sem par. Assim revolto

ao rosto o sentido

lhe vem de encontro.

“Que praz ao poeta?”

É hora do almoço.

À mesa o poema

retarda o feijão.

“Que dom doar ao planeta?

O esforço é vão. As letras,

se muito, riscarão no ar

seus ciclos como cometas

na página infinita.

Que olhar as lerá, se definha

nossa hermenêutica

de estrelas?”. Ronca-lhe

no ventre o vácuo.

À vista tenra

destina os poemas

ao saco de recicláveis.

“Se pede atitude!

Implora o planeta”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Questão de verossimilhança

pensei escrever no poema

Vila Madalena

como se marca no mapa

a referência



lembrar que um dia nos braços

tive Helena

não na lonjura de Osasco

nem Moema



mas logo pensei que alguém

de Alfenas

pudesse ver no confesso

um problema



como se vindo a São Paulo

pela Ayrton Senna

achasse a cidade uma cópia

de Atenas.

domingo, 24 de abril de 2011

Leônidas

porque o pé abriu-se para as nuvens

como se fosse um pássaro saciado de terra

e do fruto partido ao chão tivesse lavrado

sua semente de voo flamejante

rumo ao azul sem linhas, ao campo

sem rastro, como o fio de uma espada

partindo o céu ao meio sem sangrá-lo

com a estreita lei da gravidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Meu tio

meu tio é um sujeito estranho

que manca de uma perna

perdida aos 18 anos.

é calvo e magro e tanto

que quantas vezes vi o cinto

sustentando a perna mecânica.

sua esposa morreu atingida na queda de um muro.

meus primos sempre vi pouco.

meu tio gosta de pinga bem mais que cerveja.

joga sinuca, mas sofre de amor pelas cartas.

quando minha mãe o chamava

a passar uns dias em casa

jogávamos muito, sempre buraco

horas a fio na madrugada.

eu tinha 14, ele perdia.

os tragos que dava eram apenas de água.

jamais falamos de poesia.

Leitura de Helena

ele enrugava a testa

sobre o livro aberto

quando ela entrou



- dias antes, cerrara

o pensamento ao redor

dos livros empilhados –



mas ela entrou

pinçando o chão

como uma vespa



ele viu os pelos

envergarem

como campos de trigo



e um aroma

de lírios triturados

roçar-lhe a boca



e aí alçou os olhos

num gesto lento

como se as palavras



pesassem na retina;

como se vestissem

novas luzes



as pálpebras caíram

um instante;

ela sentou-se



a um palmo de sua

boca entreaberta;

ele manteve a mão



estirada na página

como se náufrago

na tábua



luziam as pupilas

como facas

e os olhos se esforçavam



em puxar o rosto;

ela ajeitou o cabelo

atrás da orelha



a voz exalava

um hálito fresco;

ele abria as narinas;



falando, ela sorria;

ele colhia as palavras

e as juntava



como feixes

sobre os livros que lia

ajeitava-as



como epígrafes;

no entanto,

ela as dera



com intenção nas entrelinhas:

verbos que no lábio

soam como a sibila.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A ilha

Ninfa a pedir autógrafo

"Sigamos estas deusas e vejamos

se fantásticas são, se verdadeiras."

(Lusíadas, IX)





As que vinham de ermas terras,

o olhar pendendo ao chão,

logo o nariz alteavam

ao claro azul retilíneo

estampado no horizonte;

outras de próximas praias

que a grossas mãos dardejantes

espalhavam-se como espuma,

a fronte já tinham suprida

de altiva amplidão;

todas, nas céleres naves,

em plenirruidoso coro

entoavam lépidos cânticos.

Saídas de suas naus festivas

com os sons acidulando

o ar marinho,

as vozes se acentuavam

em líquidos diminutivos.

Como reses que bovinas

ao cercado que as abriga

espremem-se na entrada,

as ninfas ombreavam-se na praia.



Reluziam nas brônzeas espáduas,

em geral, fios alongados de ouro,

embora as douradas nucas

pudessem, no cegante brilho,

espargir sombras noturnas.

Olhares fulgentes, graúdos,

de fundos tons anilados,

encimavam os tecidos

sutilmente esticados.

Assim sorriam, seriadas,

aos que na areia as tocavam.



Noutras naus, de duras linhas,

vieram os heróis velozes.

O peito inflado de glórias,

os braços férreos, o rosto

cumulado de risos,

o pensamento anotado

em lacunosos papiros,

dos barcos desciam aos dois

que o espaço da proa era parco

pro escasso ondear de ombros largos.

Assim sorriam, seriados,

aos que cortavam o caminho.



Da veste leve apartados,

a macho e fêmea resumidos,

- que demais adornos, dons, virtudes,

do humano senso presumidos

a inútil carga não carregam -

heróis e ninfas se embrenham

na fausta e venérea ilha.



"Que famintos beijos na floresta!"

Que mão honesta! Que túmida

natureza a cena oferece!

Que flor de mágoa! Que dor

abrupta remove os fios da testa!

Que fundo sopro expulsa

o ar de musgo do peito!

Que fulva fala! Que gérmen?

que fruto? que o olho colhe!



O riso de Deus tonante

(olho-que-tudo-vê)

ávido de hecatombes

ressoa na caixa argêntea.

Ninfas e heróis ululam

na noite de lua ausente.

Ao todo azul poderoso

dançam como guerreiros

atravessados de lança,

ou como animais

feridos para a matança,

ou homens mesmo

contorcionados no instante

que dão de si na cloaca.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Série Badaró

Do não entendimento do mundo, Cídio Martins, dez. 1997


para Eduardo Oliveira e Marcela de Souza



A juventude é um estágio curioso. Praticamos tolices que mudam o mundo (ao menos esperamos que mudem), somos iconoclastas, arrogantes, invulneráveis. Tudo isso sem saber muito para onde as coisas vão. Confiança em excesso e autocrítica deficiente. Que bom que sejamos assim! Eppur si muove! O medo de errar está bem abaixo da volúpia de criar, acontecer, movimentar. A experiência precisa ser aberta a facão.

Radares da tarde, Sidnei Xavier, 1998

Só se é poeta após os 30!? Rimbaud era traficante, não há dúvida. Antes foi só um garoto vulcânico, que cobriu de lava uma Paris burguesa. O que veio depois são conjecturas.

MCMXCVIII, Dirceu Villa, 1998


Relendo o que produzimos antes dos 30 na extinta Série Badaró, nada vejo que me traga aquele ar de nostalgia das coisas passadas. Há ingenuidade e arrogância, claro. Há falhas e iluminações, buscas e descobertas, sim. Mas há, sobretudo, uma pulsão de arte, um vigor de conquista tão latente naqueles escritos, que consigo lê-los como se mal tivessem saído do prelo. Não sei até que ponto a experiência de fazer aqueles livros da capo, de cabo a rabo, da mente de cada autor à mão de cada leitor, nos dá uma sensação de concretude, como se nos tivesse sido tatuada, e por mais que se queira, não se consegue ignorar.

O amor dos telepatas e Anjos no limbo, Rafael Vogt Maia Rosa, 1999


A Série Badaró foi curta, durou cerca de três anos e seis livros, criou fatos e factóides, amizades e desencontros, esvaziou copos e juntou, num espaço e tempo inapreensíveis, em torno da idéia utópica de publicar livros, personalidades tão díspares quanto entusiasmadas.


Almenara, Rogério de Almeida, 1999



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Encontros ao meio-dia

“di quella sozza e scapigliata fante

che lá si graffia con l’unghie merdose,

e or s’accoscia, e ora è in piedi stante.”

(Inferno, XVIII)



quando a porta ele fechava

ao burburinho arenoso

das falas nos corredores

e o casaco repousava

no espaldar da cadeira

secando o suor do rosto,

ela o mirava,

os grandes olhos luzentes,

e assim que molhava os lábios,

que grossos emolduravam

fileira espessa de dentes,

lhe dizia, os pés planando

a dois dedos do chão vermelho:

“Lindo corte essa calça tem!”



em si o contido não dava

o desvio do olhar, ou se desse,

ao menos diria um não-dito;

a voz, porém, se acumulava

em sílabas sem graça ou jaça

na mesa atulhada de livros;

tenção de sair era frustrada

pela enxurrada de acentos

que se interpunha no impulso



o mais, no entanto, que aturdia

o pensamento de evadir-se

era o afecto mover das mãos

que aos olhos e nariz aderia.

Movimento do mar

como a onda

que escava a praia



e engolindo-a

continuamente



jamais a engole

pois a retorna



umedecida

do sal sanguíneo



que o mar inquieto

retira ao fundo



de seu silêncio

azul-noturno



e revertida

ao primo leito



é ela ainda

mas água alheia



que mesmo seca

ao sol sedento



lhe salga o seio

de costa extrema



assim meu lábio

te molha a boca



que ao vento arqueja.

Caminho

“Aí escutarás o silêncio.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)



Fecha atrás de ti a porta que confinou o beijo por anos. Vai pela rua onde os pinheiros crescem abraçados em júbilo. Não repara as casas amareladas, as paredes cruas, as crianças descalças na calçada: são felizes no tempo que as renova. Segue em direção ao lago, onde talvez pudéssemos, um dia, nadar como peixes enlanguescidos. Mas não pare aí, que há de vir a estrada longa que margeia o rio e do qual não deves beber se a sede te ressecar os lábios. Não, tua água está distante, deves caminhar ainda entre os rostos turvos da manhã de cinzas. Se te pesar o sol, suspire sob a ponte; se os pés pedirem descanso, diga-lhes do leito na primavera coberta de flores. Vem pela via dos homens exaustos da guerra, por túneis e vales em que a cidade sangra. Sobe ao morro por onde meus pés deixaram rastros: de lá procuro-te há séculos. Segue o caminho do mar, devolve teus olhos às ondas e vem até meu peito, teu lar de ventos e calor, depor teu beijo exânime de tempo.

Teoria do conhecimento

ela deixou o ventre

em silêncio



os olhos ainda contidos

na escuridão materna



nem extirpada do elo

moveu os lábios



mas a licht, como pedira Goethe,

pulsada em sol no seu rosto



lhe revolveu os ventos

premidos no peito virgem,



que as velas, se as houvesse,

apagariam nos corredores.